sexta-feira, 10 de maio de 2019

::Agora a série:: Dead to me




“Dead to me” é a nova série sensação do Netflix. E é fácil perceber porquê. Lá em casa, foi necessário recorrer a muita disciplina para ficarmos com uma média de 3 episódios por dia e varrer aquilo em 3 dias e não num, que era o que nos apetecia.

Esta é história de uma viúva, cujo o marido morreu num acidente de atropelamento e fuga e a da amiga, que conhece num grupo de apoio ao luto. As duas, numa tentativa de descobrirem o culpado da trágica morte, levam-nos numa viagem em que o bem e mal se misturam. Enquanto assistimos ao desenrolar de uma amizade a formar-se, assistimos a uma ficção que nos mostra a complexidade que pode ser a vida. Que nos mostra que as coisas não são estanques, não são preto no branco e que, quando se conhecem as personagens a fundo, quando se conhecem as suas histórias e vivências, deixa de haver um bom e um vilão. Ou há um pouco dos dois em cada um de nós. 

Costumo dizer que, quando bem escrita, uma história pode fazer-nos torcer pelos maus da fita. Dead to me vai mais longe e faz-nos, também, sentir irritados com as vítimas. Nesta história, não há culpados nem inocentes e é impossível não nos identificarmos com isso.

quinta-feira, 14 de março de 2019

::Pão Pão Queijo Queijo:: Santuario Cucina


Há uma semana tomei uma importante decisão na minha vida. Decidi que toda a minha alimentação vai passar a basear-se na comida italiana. Isto porque descobri que comida italiana é massa, é pizza, é queijo, mas não só. Comida italiana é muito mais que isso.

Como é que ninguém se pergunta porque é que os italianos, com este tipo de alimentação, não são gordos?

Eu descobri a resposta ao aceitar o convite da Alessandra do The Sícula Project para a abertura do seu novo espaço, o Santuário Cucina.  

Ao aceitar este convite, não fazia ideia que estava a aceitar o convite para ir a um dos sítios mais bonitos de Lisboa, para conviver com um grupo de pessoas muito interessantes, empreendedoras e originais e para uma das melhores refeições da minha vida.

 

Passo a explicar, a Alessandra é uma italiana que cozinhou quase toda a sua vida, mas recentemente decidiu dedicar-se a esta sua arte de forma profissional. Tirou cursos, fez workshops e, constantemente, experimenta ingredientes, combinações e temperos. Depois, passa a palavra e ensina tudo isto nos workshops que organiza.  

Veio para Lisboa, bateu a várias portas e acabou a gerir este espaço. O Santuario Cucina onde organiza workshops, supperclubs ou aluga o espaço para eventos. Cozinha incluída.  

Recebeu-me neste espaço minimalista com um cocktail à base de vinho branco. Fresco, leve e bubly. 

 Apresentou-me a várias pessoas. Desde de uma marketeer especializada em gastronomia e que participa no projeto Mulheres com tomates a uma empreendedora que faz sapatos a partir de lixo. E isto é só uma amostra da extensa lista que podia escrever aqui. 

Sentamo-nos todos à volta da mesa e enquanto degustávamos a refeição preparada pela Alessandra, aprendi muitas coisas.

 Aprendi que os italianos comem massa todos os dias, mas nunca nas quantidades que nós comemos. Levam a sério essa história do primo piatto e secondo piatto. E assim, com a massa, comem também legumes e outros ingredientes que tornam qualquer refeição muito mais saudável. Mas fazem-no com uma arte que quase nos faz desconfiar que seja mesmo saudável. Também é raro comerem massa com carne (exceto a bolonhesa) ou com natas. Massa em Itália quer-se com peixe e vegetais. 

A nossa entrada foi composta por “Caponatina siciliana com burrata em cima de um cracker de lievito madre”. Ou seja, uma bolachinha fininha, crocante com uma pasta que levava legumes, pistachios e queijo e que tão bem nos abriu o apetite e a curiosidade para o que mais nos esperava. 






O prato principal foi ravioli com camarões e pistácio com molho creme de limão e gengibre. E eu não sabia que camarão e pistachio podiam tão facilmente distinguir-se ao paladar e tão facilmente criar uma harmonia de sabores que me deixaria a, volta e meia, sonhar e salivar com isto. Era tão bom, tão bom, que quase me fez reclamar desta coisa dos italianos não comerem mais que 6 a 7 raviolis por refeição. 

Normalmente, sou aquela pessoa que odeia fruta em saladas ou qualquer outro prato salgado. Até ter provado a famosa salada siciliana, em que a laranja é a rainha. A rúcula e o creme de sementes e rábano que a acompanhavam, tornaram este prato um deleite para os olhos e para as minhas papilas gustativas.  


Como se já não bastasse este rol de elogios e o fato de já todos estarmos quase a rebolar com toda a comida ingerida, eis que Alessandra nos aparece com um cannolo desconstruído. E já adivinhando alguma resistência, mostrou-nos parte da sua preparação. Isto de nos pôr a ver o chocolate a derreter para completar a taça com creme de ricota e casca de laranja é das melhores ações de marketing que já vi. Era impossível resistir. E ainda bem, ou hoje não conheceria a cremosidade da ricota a contrastar com a bolacha crocante que a acompanhava.

É demasiado bom. 


 Depois disto, mal posso esperar para fazer todos e qualquer workshops da Alessandra e estou muito curiosa com o supperclub que irá acontecer a 11 e 12 de Abril e em que a Alessandra se junta a dois chefs para nos mostrarem o melhor de 3 ilhas, Sardenha, Sicília e Cyprus. Alguém me acompanha? 

Para conhecer melhor este espaço e a agenda dos workshops e supperclubs basta seguir as suas páginas no facebook e no Instagram.






sexta-feira, 8 de março de 2019

Hoje não sou feliz por ser mulher



Gosto que me chamem histérica. Significa que já tenho voz.

Gosto que me digam que a minha roupa é inapropriada. Significa que já posso escolher o que visto.

Gosto que me chamem de leviana. Significa que já posso decidir a minha vida sexual.

Gosto que me tentem explicar política como se eu fosse muito tontinha. Significa que já posso votar.

Gosto que tentem aconselhar-me profissionalmente. Significa que já tenho opção de escolha.

Sou uma privilegiada e, por isso, hoje não quero comemorar.

Gosto de todos estes direitos que alguém conquistou por mim e dou por garantidos. Não gosto quando me criticam por gozá-los. Seja para emitir uma opinião que muitos outros privilegiados nunca vão entender, seja por vestir uma roupa que não se encontra dentro dos moldes da minha sociedade.

Não gosto quando percebo que nem todas as mulheres do mundo usufruem destes meus direitos. Não gosto quando ainda se educam mulheres para se subjugarem à vontade de um homem. Não gosto, como descobri recentemente, que ainda se mutilem genitalmente meninas, mesmo à frente do nosso nariz, mas nesse mundo distante que são os bairros sociais.

Não gosto que não se perceba que a violência doméstica é uma questão associada à identidade de género porque se perpetuam ideias misóginas que levam homens a acreditar em propriedade e honra e outras merdas que os levam aos números que hoje conhecemos.

Durante muitos anos, não gostei que me chamassem feminista porque também eu vivia nessa ignorância de achar que feministas são aquelas que não aceitam as diferenças biológicas que a natureza nos deu. Hoje, não gosto que me chamem de feminista porque sou uma privilegiada que não está na linha da frente desta luta.

Não gosto de jantarinhos de mulheres, de receber flores ou que digam que aquele que escolhi para meu parceiro nestes meus direitos, hoje, tenha de cozinhar para mim. Hoje não sou feliz por ser mulher. Sou triste por todas aquelas para quem ser mulher é uma desvantagem.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

É só Natureza. Humana e não só.




Um dia a tua avó vai contar-te a história da carochinha. Vai convencer-te que aquele, o da carochinha, com o tostão, à janela, é o teu objectivo de vida. Convence-te que só te sentirás completa no dia que procriares em relação duradoura.


Um dia, vais desconfiar da tua avó. Vais achar que há outras coisas, vais querer estudar, realizar-te num trabalho das nove às seis, vais querer estar com os amigos. E vai chegar-te.


Noutro dia, sem que o descubras, vais ter o teu corpo a produzir hormonas, dopaminas, estrogénio e vais sentir um cabrão de um instinto que te fará partir em busca do macho alfa. O coktail de hormonas far-te-á sentir feliz, ou triste. Lê Fernando Pessoa só para poderes descrever poeticamente essas sinapses do teu corpo. Apertos no peito, falta de ar, vais flutuar ou vai doer. Imensamente. As putas das hormonas convencem-te que o mundo vai parar.

De caminho, lê o Francesco Alberoni e a ciência do amor e procura no Google esses estudos brasileiros que comprovam toda e qualquer teoria. Só para validar a verdade que mais te convém. 


Quando as hormonas te atacarem, não te vai servir de nada. Não saberás o que é dopamina, não saberás que é o instinto e vai doer de igual modo, como se não houvesse amanhã. Mas dar-te-à jeito quando fores para os copos com os amigos. Fazes um brilharete, convences que tens uma inteligência emocional do camandro e ocultas a espiral em que estiveste na véspera. 


Mais importante, quando a coisa acalmar e te toldar menos a vista, vais-te lembrar que isto é só Natureza. E nem sequer é só humana.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

::Pão Pão Queijo Queijo:: Taberna Anti-Dantas




À Taberna Anti-dantas tudo se perdoa. PUM! E são dois os motivos.

Porque aqui respiram-se jornais e revistas do início do século. A começar pelo nome, uma alusão ao manifesto anti-dantas escrito por Almada Negreiros como reação às críticas à revista Orpheu que, pela novidade e arrojo para os seus tempos, causou escandalo junto da burguesia lisboeta conservadora e a acabar nas paredes forradas, inteiramente de páginas de revistas antigas.

Isto, aliado a outros fatores de decoração vintage atribui-lhe um ambiente místico no qual sabe bem estar ou até, dando asas a uma certa capacidade de abstração, sabe bem fazer parte. 


Se isto não fosse suficiente para perdoar os peticos que, não sendo maus, em nada acrescentaram ao nosso conhecimento gastronómico e de paladares, a tarte de limão merengada serviu para nos fazer esquecer qualquer falha. Ouso dizer que esta foi a melhor tarte de limão que já provei. Do frágil equilíbrio entre a acidez do limão e o açúcar do limão à leveza da massa de base, esta tate roçou a perfeição.


Desconfio que se nos tivéssemos aventurado pelos pratos principais seriam ainda mais os motivos para desculpas, a julgar pelo aspecto dos ditos e pelas caras dos seus comensais.

Mas nós ficámo-nos pelos espargos gratinados com presunto, cogumelos à bulhão pato, tiborna de polvo, mexilhões à bulhão pato e o camembert com mel e croutons e a verdade é que se comiam bem, mas aos mexilhões por exemplo, faltava-lhes sabor e molho que os tornasse menos secos. A tiborna de polvo era composta por 6 fatias de pão com rodelas de batata cozida com casca, sendo 3 com polvo em molho de tomate que conseguia ter um sabor ligeiramente mais interessante que os outros 3, pouco temperados e também algo secos. Os cogumelos eram bons, mas, na minha opinião poderiam ter um sabor mais vincado que fizesse mais jus ao nome Bulhão Pato e os restantes pratos levam queijo gratinado, não tinham como falhar.



Entenda-se que nenhuma destas comidas era má, apenas tinha apontamentos a melhorar e é por isso que não me sinto já pronta para desistir dele e pretendo voltar. Nem que seja pela sobremesa que foi acompanhada por shots de chocolate com vinho do Porto e vinho da Madeira ou mesmo só pelo ambiente. Esse sim, a valer muito a pena. PIM!
Taberna Anti-Dantas Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

::Ler para crer:: “Princípio de Karenina” de Afonso Cruz


Nunca tinha lido nada de Afonso Cruz e a minha primeira impressão é que tudo o que escreve é sobretudo muito bonito. A forma como descreve situações ou espaços é, seja ela mais mundana ou mais profunda, sempre muito bonita. Uma escrita que não é leve, mas que confere uma leveza à história e a reflexão a que nos obriga.

“O som do Outono ouve-se com os sapatos. Quando as solas partem as folhas secas das árvores”


Todo o livro é uma carta de um pai para uma filha. Uma carta que conta toda a vida desse pai. Uma infância que explica o comportamento em adulto. Uma deficiência física que espelha a deficiência espiritual. E o desenrolar dessa história e a explicação para o afastamento ente este pai e esta filha.

Vi todo o livro como hipérbole de uma condição humana. Uma crítica talvez. A descrição exagerada daqueles que sendo coxos de espírito, gostariam de ter no amor uma conveniência que os mantivesse na sua zona de conforto. Só que, não saindo do mesmo lugar, qualquer zonas se torna desconfortável e o amor, esse, é, simultaneamente, inconveniente e inevitável.

"A ordem não me fazia diferença. Ou melhor, fazia. Eu podia ser o milésimo, desde que fosse o primeiro, o único. Isso não refletia uma ordem cronológica, mas quantiosa. Eu não queria ser o primeiro, queria ser o mais importante. Não tinha nada que ver com ordem, como, aliás, nunca tem. O amor não obedece a esse cromatismo do tempo, um dia a seguir ao outro, dá saltos como uma gazela do cântico dos cânticos e, por incrível que pareça, vai a direito, como quem dança”


Se por um lado adivinhamos-lhe essa sina da paixão que não pode evitar, por outro, o final, o caminho por onde o medo do amor, do desconhecido, do arrependimento, leva a personagem principal, é absolutamente surpreendente e, só por isso, este livro é um pouco mais que só feito de palavras bonitas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

::Pão Pão Queijo Queijo:: Nosolo Itália


O Nosolo Itália é daqueles sítios que me remete para tempos de verão e adolescência. Quando éramos miúdos, era nosso apanágio ir à Bella Itália, na Marina de Vilamoura só para comer o famoso crepe Bella Itália. O Crepe Bella Itália é um crepe grande, cheio, daqueles que alimentam a vista antes de o paladar e a barriga.

A Bella Itália mudou para Nosolo Itália, expandiu-se para outras localizações e ficou-nos o hábito. Não há ferias no Algarve que dispensem este nosso ritual.

Felizmente, a expansão e a idade permitiram-nos experimentar muito mais e, se possível, fazer crescer este amor de infância para a vida adulta com a sua sangria, as suas pizzas, as suas massas.

Gosto. E gosto ainda mais da vista que passou a proporcionar-nos em Belém.

Ir ao Nosolo Itáliaem Belém não é tarefa fácil. A localização aliada à qualidade, faz com que, ao fim de semana seja mesmo impossível sentar sem passar umas boas horas na fila. A mim, dá-me vontade de dar abraços a quem fica encarregue dessa tarefa de apontar nomes e gerir as mesas, tal a confusão e, muitas vezes, má educação a que tem de se sujeitar. Não é tarefa fácil a de ter de lidar com uma série de pessoas esfomeados a babar pela vista e pelas iguarias.

Não vou mentir, agora que não ligo tanto ao crepe, um dos principais motivos pelos quais continuo a voltar é a sangria. Uma sangria leve, saborosa e doce cuja frescura acompanha a brisa à beira-rio. Pode pedir-se a copo, o que é sempre uma mais valia para quem tem namorados com medo que lhes caiam os parentes na lama se não beber vinho de primeira. Só que em vez de um copo, vem um balde que permite ao álcool uma leve subida à nossa cabeça.







Já fui viciada na massa Bella Itália, uma massa com camarão e piripiri. Uma receita tão simples, onde o camarão é rei, mas o picante também se faz sentir e massa complementa. Não há dúvidas que a herança da minha tão querida Bella Itália não deixa a desejar.

A pizza bolonhesa é, como o nome indica, uma pizza com carne picada e queijo. A carne está bem confecionada e temperada e a massa… a massa é a massa da Nosolo. Fina e leve, tal como eu gosto.




Tanto em Vilamoura como em Lisboa, considero este um restaurante bastante em conta tendo a localização e os preços por ali à volta. A vista também se paga. E vale a pena.
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Para quem falas tu?

Comentador de notícias na internet, diz-me, para quem falas tu? Para os líderes do mundo? Para os visados nas notícias? Para os jorna...